Visto-me com minha roupa de festa predileta para os dias de maior público. O picadeiro, quase sempre vazio, hoje está um alvoroço e precisa-se pedir para ter, pelo menos, um minuto de silêncio para homenagear a morte do palhaço.
Sempre preferi ser bailarina, gosto dos sorrisos que não precisam ser provocados por palavras simbólicas e nem por gestos cômicos. Prefiro os espontâneos e os admiradores da suavidade em que as sapatilhas sobem aos céus em seu tom, quase sempre, cor-de-rosa. Tenho pernas mais fortes do que a de qualquer palhaço, tenho mais superfície de contato entre o céu e o chão de areia do espaço que se torna só meu com a morte daquele palhaço.
Agora, não é mais necessário pedir para que as pessoas façam silêncio para ouvir a música dos meus batimentos cardíacos. E estes não imploram por aplausos, apenas pedem um pouco de atenção.
Quem diria que uma bailarina vestida de cor-de-flor, entraria no picadeiro com a cabeça tão erguida e tão feliz com a ausência de respeito que tem pelo falecido nariz vermelho? Bailarinas sabem ser delicadas mesmo nos momentos de mais profunda perversidade, afinal, somos mulheres e todas as mulheres têm, em sua essência, uma porcentagem variável (mas sempre existente) de perversidade. A porcentagem varia de acordo com o quanto de coragem se tem de assumir e colocar os planos em prática.
A bailarina é discreta e sutil. E isso a torna uma das mais piores.
Mas ela não finge, apenas,
dança.
E pede aplausos (e não silêncio) à morte do comediante.
| | marianaporto ( |
A crueldade usa cor-de-rosa.
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